SANCTUARY – The Year the Sun Died

The Year the Sun Died é o terceiro álbum de uma banda que para muitos se tornou cult devido ao seu icônico vocalista, o saudoso Warrel Dane.

O disco marca a volta do Sanctuary sem um de seus integrantes originais, Sean Blosi, sendo substituído pelo ex-guitarrista da banda Forced Entry, Brad Hull. A sonoridade é uma simbiose entre os dois primeiros discos da banda com uma ênfase maior no segundo álbum, Into The Mirror Black. Porém com o tempo, o Sanctuary está mais maduro e as músicas se tornam viagens saborosas para o ouvinte.

The Year The Sun Died abre com Arise And Purify e a sensação que se tem é de um deja-vu pois remete à sonoridade do Into The Mirror Black mas com uma pitada de Nevermore, uma espécie de aura devido às vocalizações dramáticas de Warrel Dane. Let The Serpent Follow Me, a faixa seguinte, mantém a intensidade como uma estrutura mais complexa porém melódica e cativante, sem contar que eleva mais o clima soturno do álbum abrindo caminho para a faixa Exitium (Anthem of the Living). Um começo meio lisérgico, cadenciado, meio lúgubre e que reforça mais ainda a influência das ideias contidas no álbum anterior da banda.

A cozinha formada pelo baixista Jim Shepard e pelo baterista Dave Budbill continua afiada e coesa e mantém um background seguro para as viagens sonoras das guitarras. Shepard e seu baixo moldam a sonoridade da banda gravitando sobre os demais instrumentos mas você pode senti-lo e isso garante uma pulsação ao longo do disco, enquanto que Budbill mantém o estilo de tocar mas com mais punch vide a faixa Question Existence Fading. O andamento cadenciado dessa música favorece o ouvinte a entender o trabalho desse grande baterista.

A melancolia prevalece na faixa seguinte, I Am Low, com um dedilhado à la Fade To Black do Metallica e uma interpretação primorosa de Warrel Dane. Há uma curta dobra de guitarras no meio da música que lembrará por um breve momento o Iron Maiden, mas a faixa toda vai num indo e vindo dando uma sensação de angústia. Belíssima. Em Frozen, a banda volta destilando velocidade e peso em doses cavalares alimentadas pelas incursões da guitarra de Lenny Rutledge em rápidos e mortais licks, culminando em um solo simplesmente arrasador de guitarras dobradas numa espécie de desafio entre Rutledge e Hull. Uma magnífica paulada!

Violões distintos e vocalizações comoventes marcam a faixa – One Final Day (Sworn To Believe) – que precede uma das músicas mais pesadas do disco, The World Is Wired, que tem um início meio King Diamond descamba para um peso brutal com um andamento à la Savatage. The Dying Age é bem cadenciada e vai num crescendo com muitas referências musicais orbitando mas sem ser cover de alguma delas, e isso dá um novo ambiente, um frescor na proposta da banda. O final dessa faixa é monumental. Ad Vitam Aeternam é uma intro com um som cristalino de violões e guitarra ao fundo que antecede a faixa título do álbum, The Year The Sun Died, e ela sintetiza em seus 5:33 minutos a proposta da banda nesse disco. Carregado de certa melancolia na maioria das faixas mas com extrema maestria e bom gosto em todos os instrumentos e na voz inigualável de Warrel Dane. Uma extensão do clima precedido pelo Into The Mirror Black (1990) mas com o sentimento de hoje. E o mais interessante é que o disco fecha com uma releitura notável de uma música do The DoorsWaiting For The Sun. Ironia pura ou uma justa homenagem?

Enfim, The Year The Sun Died do Sanctuary mostra que a cada ouvida há sempre uma nova descoberta, atemporal, pesado e melancolicamente belo.

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MÖTLEY CRÜE – DR. FEELGOOD, 1989

Dr. Feelgood do Mötley Crüe é um dos álbuns mais icônicos da música pesada.


Do começo ao fim, a banda se superou criando músicas brilhantes e que cativam o ouvinte da primeira à última nota. É notável que os caras estavam muito inspirados e bem motivados.
E aqui estão 10 fatos sobre esse icônico álbum:

  1. Foi o primeiro álbum gravado sóbrio.
    Entre o rescaldo da queda de Neil e o susto da morte de Sixx, a realidade finalmente começou a se estabelecer para o Mötley Crüe – se eles não se recompusessem, sua carreira estaria acabada e eles poderiam acabar morrendo (permanentemente). Então, a banda se limpou antes de entrar no estúdio e realmente canalizou sua energia para a música, que obviamente pode ser ouvida.
Nikki Sixx, Vince Neil, Mick Mars e Tommy Lee
  1. O original “Dr. Feelgood”.
    O apelido de “Dr. Feelgood” foi originalmente dado ao Dr. Max Jacobson pelo Serviço Secreto durante a presidência de John F. Kennedy. Jacobson era conhecido por administrar anfetaminas a clientes proeminentes como os Kennedys, Marilyn Monroe, Elvis Presley e outros, via injeção.
    Ele acabou perdendo sua licença … graças a Deus.
  2. Isso inspirou o Metallica.
    O produtor Bob Rock trabalhou com Motley Crue no álbum, e o som de bateria estelar de Tommy Lee inspirou Lars Ulrich do Metallica a contratá-lo para produzir The Black Album.
  3. Refere-se ao seu passado.
    Na música “Don’t Go Away Mad (Just Go Away)”, há uma frase que diz “Eu sabia o tempo todo / Eu teria que escrever essa música / Muito jovem para se apaixonar / Acho que sabíamos disso o tempo todo”, que é uma referência ao seu primeiro hit” Too Young to Fall in Love “.
Nikki Sixx
  1. A faixa-título era originalmente muito diferente.
    Sixx, que escreveu quase todas as músicas do Motley Crue, tinha um conjunto de letras totalmente diferente para a música “Dr. Feelgood”. Ele disse à Rolling Stone por volta do 20º aniversário do álbum: “Tinha um tema totalmente diferente. Chamava-se Dr. Feelgood, mas uma coisa totalmente diferente nas letras. No final, foi inspirado por traficantes de drogas.”
  2. Ganharam um tênis.
    Em 2008, a Nike lançou um tênis comemorativo “Dunk High” que foi colorido para combinar com o tema da capa do álbum – diferentes tons de verde, estampa de cobra e vermelho.
  3. Tem participações especiais de estrelas.
    Steven Tyler do Aerosmith fez backing vocals na faixa “Sticky Sweet” e Robin Zander do Cheap Trick cantou em “She Goes Down”.
  1. Foi bem nas paradas.
    Ele alcançou a posição número 1 na Billboard 200 e passou um total de 109 semanas na parada. Ele também ganhou o Melhor álbum de Hard Rock / Heavy Metal do ano no American Music Awards de 1991.
  2. Vince Neil na guitarra.
    Neil tocou guitarra em algumas músicas do álbum, incluindo “Don’t Go Away Mad (Just Go Away)” e “Same Ol ‘Situation (S.O.S.)”, e ainda tocou ao vivo também.
  3. Inspiração dos Beatles.
    A melodia no final de “Slice of Your Pie” é baseada na faixa dos Beatles, “I Want You (She’s So Heavy)”.

LEITURA BÁSICA: Rust in Peace – A história da obra-prima do Megadeth

“Conhecimento é poder”

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“Você não pode falar de heavy metal sem mencionar Dave Mustaine e Megadeth. Rust in Peace é um livro que todo headbanger deve ler. Uma história de glória, destruição e redenção.” ― Alice Cooper

“Dave Mustaine sempre se manteve fiel a si mesmo e nunca se interessou em seguir tendências musicais, essa tem sido a chave para o sucesso desse disco do Megadeth.” ― Ozzy Osbourne

“Rust in Peace merece esse livro dedicado exclusivamente a ele.” ― Scott Ian

Rust in Peace revela os detalhes da produção do icônico disco do Megadeth, lançado em 1990, durante um período de incrível efervescência e criatividade no mundo do rock. Com a assinatura do próprio vocalista e guitarrista, Dave Mustaine, esse livro relembra o processo de contratação da banda (e da equipe de apoio), além da tentativa de lidar com o sucesso e, por fim, a pressão da fama e da fortuna – o que levou a banda a finalmente se separar.

Mustaine mal sabia que as turbulências envolvendo o disco não eram nada comparadas à dor e ao tormento que se aproximavam. Álcool, drogas, sexo, dinheiro, prestígio, mentiras – tudo isso era apenas o começo e, assim como a ferrugem [rust, em inglês] na vida real, esses fatores acabariam corroendo a ligação da banda até que apenas a música sobrevivesse.

Dave Mustaine – Nick Menza – David Ellefson – Marty Friedman

Rust in Peace é uma história de perseverança, da necessidade de eliminar a ferrugem que se acumula ao longo do tempo em tudo: em nós mesmos, em nossos relacionamentos, na cultura pop, na arte e na música.

ALEXI LAIHO

Lembro-me do dia que chegou o disco de estreia do Children Of Bodom na Die Hard, a loja que eu trabalhava na Galeria do Rock.

Não tinha noção do que era o Something Wild, apenas imaginava o conteúdo quando li algumas resenhas dizendo que a banda – oriunda da Finlândia – era uma espécie de Stratovarius do Diabo, coisa que me fez torcer o nariz porque era uma época que as bandas de metal melódico estavam dominando o cenário de uma forma excessiva.

BERLIN, GERMANY – MARCH 27: (EDITORS NOTE: Image has been converted to black and white.) Singer Alexi Laiho of the Finnish band Children of Bodom performs live during a concert at the Astra on March 27, 2017 in Berlin, Germany. (Photo by Frank Hoensch/Redferns)

Como os CDs chegavam lacrados era impossível ouvir e saber de verdade a sonoridade, mas felizmente algumas gravadoras mandavam CDs promocionais que ajudavam a mostrar ao público o material da banda sem ter que “sacrificar” o CD lacrado, e foi aí que fiquei impressionado com a força sonora do Children Of Bodom.

Era algo realmente refrescante, e não via – ou ouvia – similaridade com o Stratovarius. O COB tinha muito mais elementos de black metal com incursões bem inspiradas de música erudita feitas com o teclado e a guitarra, que de vez em quando me lembrava Yngwie Malmsteen.

Mas o mais importante, não só em Something Wild, mas em toda a discografia do Children Of Bodom é a genialidade de Alexi Laiho para criar camadas de riffs pesadíssimos e estruturas muito bem feitas dando à banda uma personalidade que fugia de qualquer estereótipo, ora black metal, ora death metal melódico, ora erudito, ora viking.

Alexi Laiho criou um estilo, não só musical, mas de se tocar também. Mesclou uma gama de influências sonoras e jogou tudo num caldeirão incrivelmente criativo. Laiho tocava com a alma e com o coração, e isso era tão verdadeiro que a aceitação do público foi imediata.

No final do ano passado Alexi Laiho partiu para uma outra dimensão, mas felizmente deixou um legado incrível para as novas gerações que ainda estão por vir.

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SÉRIE: VOCAIS INFLUENTES

BOBBY “BLITZ” ELLSWORTH

Se Chuck Billy do Testament foi o responsável pelos meus graves, Bobby “Blitz” Ellsworth foi o responsável pelos agudos mais energéticos que já escutei, e aliados a uma performance avassaladora de palco, credencio Blitz a um dos maiores frontmen do planeta.

Ele é um verdadeiro guerreiro. Quase não poderia cantar devido a uma má técnica que usava, mas felizmente foi apresentado a um especialista que o curou. Em 98 foi diagnosticado com uma forma agressiva de câncer, e ele teve um pedaço do nariz retirado para que a doença não se alastrasse. E em 2002, sofre um derrame no meio de um show na Alemanha, mas mesmo assim Blitz continua firme e forte mostrando todo o seu talento e nos brindando com seu poderoso vocal.

Reconhecido pelos agudos potentes e interpretações fantásticas, esse grande vocalista consegue aliar a agressividade com melodia encaixando as letras perfeitamente. Meu primeiro contato com o trabalho dele na banda Overkill foi o clipe da música Elimination. E a partir daí fui pesquisando mais e mais seu estilo. Desde a raivosa Rotten To The Core até a cadenciada In Union We Stand podemos perceber o quanto é versátil a voz de Blitz. Só pra dar um exemplo disso, o Overkill gravou um álbum só de covers – Coverkill – e lá vocês terão um grande exemplo dessa versatilidade e do timbre feroz de pato selvagem com vidro moído da voz de Blitz, um verdadeiro operário do metal.

Feel the Fire | Taking Over | Overkill – the Years of Decay

Com o tempo me tornei fã incondicional desse cara, e para sacramentar esse sentimento mais ainda, tive a honra de dividir o palco com esses dois baluartes do thrash, Exodus e Overkill em uma turnê no ano de 2009.

Me recordo de uma apresentação de Blitz que foi no mínimo… memorável! Todas as bandas performaram muito bem, mas naquela noite o Overkill estava infernal destilando seus clássicos numa energia absurda. Talvez pelo fato de que até aquele momento, o Exodus estava comendo com farinha o Overkill todas as noites. Obviamente, as bandas não estavam competindo entre si, mas a quantidade de clássicos que o Exodus tirava da cartola era tanta, que fez o Overkill abrir mão de duas músicas novas para colocar mais alguns clássicos no setlist, e dessa forma as coisas começavam a virar pro lado deles. Mas nessa noite, a energia estava muito boa. Uma vibe maravilhosa, e quando entro no camarim me deparo com um Bobby Blitz, sentado em uma cadeira, cansado mas feliz em ter feito o melhor show do Overkill naquela noite. Então, não me contenho e digo em alto e bom som: “Tenho três influências de vocalistas de thrash metal na minha vida, Max Cavalera, Chuck Billy e um certo cara chamado Bobby Ellsworth!” Então, sozinho ali no canto do camarim, ouvimos a voz do Blitz dizendo: “Yes man, it’s me!

Wings Of War [Disco de Vinil]

SÉRIE: VOCAIS INFLUENTES

CHUCK BILLY – (Testament)

Esse cara é sem dúvida a minha maior influência nos vocais graves, Chuck Billy.

Na época que saiu o álbum Souls of Black, saí pra comprar na galeria e voltei louco pra ouvi-lo. Uma das faixas que repeti à exaustão foi Falling Fast, justamente por um grave que Chuck fazia no refrão, e que eu ficava tentando reproduzi-lo a toda hora com a mesma intensidade. Fui mais e mais me aprofundando no estilo dele e posso afirmar que os graves que Chuck Billy imprime são os melhores. Força, timbre e melodia compõem seu estilo.

Testament – Souls Of Black

No começo do Testament vimos que ele está tentando soar agressivo, mesmo porque era o início da banda e normalmente, pra mostrar serviço logo de cara (Steve “Zetro” Souza saiu da banda e foi pro Exodus, e ele mesmo recomendou Chuck Billy para substituí-lo). Mas conforme a banda ia crescendo no circuito thrash e lançando álbuns, percebemos que Chuck vai moldando seu estilo com mais melodia e chega até a cantar baladas, prova de como o vocal dele é versátil.

Steve ‘Zetro’ Souza – Photo by Miikka Skaffari/FilmMagic

Mas, após o The Ritual ele retorna com Low mostrando e abusando de seus graves cavernosos, daqueles que quando você ouve treme todo o estômago. Porém, um dos discos mais insanos e onde podemos sentir todo o poderio vocálico de Chuck Billy é no disco The Gathering. Isso é Chuck Billy.

Testament – The Ritual | Testament – Low | Testament – The Gathering

No disco mais recente do Testament, Titans Of Creation, Chuck Billy está simplesmente impecável, e dá gosto perceber o quanto ele consegue aliar o timbre agressivo e melodioso de sua voz com seus graves cavernosos característicos.

Testament – Titans Of Creation

SÉRIE: VOCAIS INFLUENTES

MAX CAVALERA – (Soulfly, Cavalera Conspiracy)

Se tem uma pessoa responsável por eu ter escolhido ser vocalista de banda de metal, essa pessoa foi Max Cavalera. Lembro-me de ler de cabo a rabo na extinta revista Bizz e na Rock Brigade matérias sobre a então emergente banda Sepultura. Quando passou o vídeo clipe deles da música “Inner Self“, eu juntei uma grana do meu primeiro emprego, e comprei o que seria meu primeiro disco de vinil, Beneath The Remains. Tenho essa maravilha até hoje, e ainda continua sendo uma fonte inesgotável de inspiração. Minhas primeiras tentativas de cantar gutural foram inspiradas pelo Max, e eu tentava reproduzir o timbre da voz dele nos ensaios com a minha primeira banda RTH – Reasons To Heaven.

Beneath The Remains (1989)

O grande ensinamento que podemos tirar é que Max aliava muito o feeling com a capacidade de compor riffs e bases fenomenais e que juntamente com o grande Andreas Kisser formavam uma das maiores duplas de guitarristas da galáxia. Percebemos que tudo é feito numa raça incomum, numa gana fora de série, numa simplicidade assustadora pela sua grandiosidade.

ANDREAS KISSER

Certa vez, alguém disse que a forma como Max vociferava as letras lembrava muito um general comandando no meio do caos de uma guerra, e ouvindo as faixas do Beneath The Remains temos essa ideia nitidamente. Porém com o tempo creio que a figura do “general” mudou para um caráter mais messiânico. Bom, o que fascina em grande parte é o groove empreendido e a maneira como ele coloca os vocais em bases simples, porém brilhantes. É difícil destacar alguma música desse disco. Cada uma tem uma história, tem um universo inteiro girando quando as faixas são tocadas, mas por incrível que possa parecer isso era apenas uma demonstração do que viria a seguir.

Arise (1991)

Com uma turnê bem sucedida, eis que o grande Sepultura volta ao estúdio e a banda grava o clássico Arise. Aqui ouvimos Max cantar com mais segurança e indo direto ao ponto sem deixar o groove e seu timbre característico de lado. Ele também não é dado a soltar berros ao longo da música como Brett Hoffmann do Malevolent Creation porque o que mais chama a atenção no estilo dele é ser simples, ou seja, menos é mais. Arise é um casamento perfeito entre a parte instrumental aliada ao talento do vocalista, e que juntos deram vida a um dos maiores discos de thrash metal mundial. O general continua lá ditando suas palavras diretamente no ouvido das massas, uma voz no meio da tempestade sonora. Mas, a verdade é que não há o que dizer sobre Max Cavalera. Creio que tudo já foi dito, e o que mais me orgulha é que carrego dentro de mim a emoção de ter cantado junto com ele em um show. Roots, bloody roots!!

NAPALM DEATH – Brasil, 1997

Como sobrevivi ao show mais insano da minha vida

Vou relatar um show que aconteceu nos idos de 1997. Napalm Death no Folclore Musical. A banda estava fazendo a turnê do seu mais recente álbum Inside the Torn Apart, que mesclava a agressividade peculiar do Napalm com certos experimentalismos musicais tais como vocais limpos em algumas músicas.

No dia do show, a concentração dos headbangers já era grande na frente do local e como fazia um certo tempo que não tínhamos os ingleses por aqui desde o ano de 1990 – ocasião que eles dividiram o palco com o Sepultura – a expectativa era enorme. A cada apresentação das bandas Transfixion, Nervochaos e Krisiun, o local foi se enchendo de tal maneira que na hora do show do Napalm era quase impossível se mover.

Eu olhava pra frente e era só cabelo, pros lados… mais cabelo, e quando eu tive a oportunidade de olhar pra trás era um mar de cabelo que o fundo da casa de show tava numa escuridão só. E com gritos mais e mais fortes de “Napalm Death! Napalm Death!” Barney Greenway (vocal), Mitch Harris e Jesse Pintado (guitarras), Shane Embury (baixo), e Danny Herrera (bateria) adentram o palco. Comoção generalizada! Mesmo sem música, sem nada fui levado para frente e para trás numa onda humana que já antevia o caos e o estrago que aquilo ali iria dar. Pra piorar não conseguia ver um rosto familiar nesse mar revolto. Cabeças por todos os lados, e a grande maioria estava louca e sedenta de sangue, sendenta em ver o show e ouvir a brutalidade sonora dos clássicos sons do Napalm, e a coisa não tardou. Quando Barney deu o primeiro berro e a música começou o local veio abaixo. Não consegui ver a primeira música porque estava tentando salvar a minha vida no meio de inúmeros mosh-pits que brotavam no local instantaneamente. Um turbilhão de gente se digladiando ao som do fim do mundo. Na boa, eu estava realmente no epicentro de um furacão. Eu dançava conforme a música, e pra poder chegar numa boa perto da parede eu tinha que entrar na roda e sair socando todo mundo. Mas o impacto da força daquele momento foi tão grande que todos os seguranças subiram no palco, e com olhos esbugalhados de pavor ficavam vendo os bangers numa furiosa dança de possuídos pelo tinhoso. Até mesmo o próprio Barney estava visivelmente preocupado com o caos que aquele local se tornou, e contrastava com o sorriso na cada do Jesse Pintado, que estava pirando naquilo tudo, mas tão logo a primeira música acaba, a banda sai do palco.

Nesse momento, os seguranças todos em cima do palco faziam uma corrente humana e foi nesse momento que Alexandre do Krisiun entra, pega o microfone e acalma um pouco os presentes. Isso pelo menos me deu tempo para achar um local que dava para apreciar melhor o show, e quando o Napalm retorna… o caos vem em seguida novamente, mas mesmo olhando os bangers se acabando, não houve nenhum problema grave. Lá pelas tantas um clarão surge no meio do público. Do nada um segurança passa no meio dos headbangers segurando uma das barricadas com medo de ser atingido, mas pensem bem… por que cargas d’água alguém vai querer passar justamente no meio dos bangers naquele momento? Que estupidez!

E o show foi transcorrendo até o final numa energia impressionante com rodas acontecendo a qualquer momento com um dos pontos mais altos quando tocaram “Suffer the Children” do Harmony Corruption (90). Enfim, o saldo desse show só fui saber no dia seguinte. Corpo dolorido, hematomas e o ouvido zunindo até umas horas, mas com um sorriso de satisfação pelas cicatrizes de batalha, prova de ter sobrevivido a um dos shows mais insanos que já participei.

DISCERNIMENTO

“Tudo é música!”

Certa vez compareci no Carioca Clube para assistir as bandas Deicide e Children Of Bodom se apresentarem no mesmo palco.
Confesso que não conheço muita coisa do COB, apesar de que na época em que trabalhei na loja Die Hard na Galeria do Rock, vendia que nem água o álbum Something Wild. Já o Deicide conheço há muito mais tempo, ao ponto de Glen Benton ser uma das minhas influências vocais nos timbres e na forma como ele coloca a voz nas músicas alternando do grave cavernoso ao agudo gritado. A única apresentação do COB que vi foi no Wacken de 2011, e foi uma tarefa bem difícil porque eles finalizaram o festival após um show monstruoso do Kreator no Black Stage. E os finlandeses deram o sangue nessa apresentação.
Nesse dia percebi que a junção das duas bandas foi um sucesso apesar da noite fria e chuvosa. Duas bandas com estilos de música diferentes, mas que fizeram a alegria dos headbangers. E isso me faz lembrar as palavras do grande mestre Chuck Shuldiner que dizia que no final das contas tudo é Metal, e as subdivisões do estilo enfraquecem ou servem apenas para leigos se situarem ou acadêmicos que gostam de definir algo ou alguma coisa. Na minha opinião definir é limitar. Para mim, Metal é um galho forte e verdejante de uma árvore chamada Rock, e essas subdivisões parecem que fomentam um certo separatismo no meio. No fundo tudo é música, é sentimento colocado na forma de notas musicais e nas letras. O que temos que ter é algo chamado discernimento. Porque na realidade só existem dois tipos de música, a boa e a ruim. Sou uma pessoa que ouço ZZ Top com a mesma alegria e entusiasmo que escuto um Monstrosity, e depois um Kiss, Slayer, Celtic Frost, Amon Amarth e por aí vai. Ontem tive um exemplo disso. Fãs delirando ao som do Deicide, fãs delirando ao som do Children Of Bodom. E viva o Metal!

DEICIDE: https://www.youtube.com/watch?v=4fIa0FjlzqU

CHILDREN OF BODOM: https://www.youtube.com/watch?v=Bv-oswyPzak

NADA SUPERA O SHOW AO VIVO

Em tempos de pandemia, onde todos estão isolados em suas casas, assistir videos de shows das bandas se tornou uma opção paliativa para aqueles, que como eu, gosta de ver as bandas em seu verdadeiro habitat, o palco.
Ao mesmo tempo alguém está fazendo nesse exato momento downloads ou ouvindo música pelo streaming ou trocando playlists por bluetooth, enfim, as mais variadas maneiras de ouvir e compartilhar música.
Porém, algo não muda e nunca mudará. Assistir um show ao vivo! Agora, mais do que nunca!
Para quem vai justamente no intuito de se divertir e ver um espetáculo, isso é um dos prazeres que dinheiro nenhum paga, apesar dos preços abusivos dos ingressos, e até da estrutura duvidosa dos eventos.

James Hetfield [ Metallica ]

Certa vez, cheguei atrasado no show de uma das bandas seminais do rock, Jethro Tull. Consegui entrar na terceira música e o local estava lotado, mas havia algo estranho. Aquilo parecia um barzinho da Vila Madalena com uma quantidade de gente conversando entre si e no celular bem na hora da apresentação da banda. Em cima do palco, Ian Anderson e companhia mandando muito bem com toda aquela maestria e performance genias, de anos e anos de turnês ao redor do mundo. Até o momento em que, do nada, a banda começa a tocar a famosa introdução da Aqualung. Comoção geral!
Era gente desesperada se despedindo da ligação do celular, gente dizendo que essa é a música mais legal deles, gente gritando “uh-huh!”, enfim a banda teve a devida atenção para a sua performance naquele espaço de tempo, porém tão logo termina a música, o povo retorna com seus celulares e ligam para dizer que acabaram de ouvir a melhor música da vida deles, que Jethro Tull é a maior banda do mundo e isso e aquilo. Ou seja, o Credicard Hall voltava a ser um barzinho.

Mötley Crüe

Eu encaro um show da banda como algo espiritual. Um momento esperado por todos, banda e público. Desde a composição, ensaios, gravação, lançamento, até chegar aos ouvidos daqueles que consumirão instantaneamente, e dessa forma comparecer ao show da banda.
Mas apesar dos pesares. Das conversas paralelas e dos celulares, quem estiver lá está fazendo parte da história do evento, da história da banda, e de sua própria história. Cada um escolhe como participar dessa história.

Running Wild [Wacken Open Air ]

Lamento até hoje dois shows que perdi por puro radicalismo e negligência, Pantera e Rush. O Pantera porque o vocalista era careca e usava bermuda, e o Rush porque fui deixando pra comprar o ingresso na hora e acabei me ferrando. Bom, muita coisa mudou de lá pra cá, e o fluxo de shows ficou muito mais intenso impossibilitando financeiramente de comparecer em todos, mas não hesite se você conseguir ir, independente da banda ser headliner ou de garagem.
O barato é fazer parte da história.

*Acompanhe também o Blog Do Volume11, meu outro blog onde falo de música, só de música. Valeu!

https://wordpress.com/view/volume11571461775.wordpress.com